"- Ficar velho é um inferno!"
Com agulhas enfiadas nas veias, revezando entre gotas de sangue, soro e remédios que escorrem pelos tubos, foi o que disse aquela senhora que estava na emergência do hospital, aguardando por um leito. A única coisa em que ela conseguia pensar, depois da sensação desesperadora que viveu ao sentir o ar sair e quase não mais voltar ao seu peito, era que não sabia se iria conseguir sobreviver. Enquanto agonizava de dor e falta de ar, ela dizia que não aguentava mais. O enfermeiro, que estava próximo, tentava manter-se firme e indiferente aos gemidos daquela senhora, já que tinha que cuidar, sozinho, de mais outros 7 pacientes. Mas ele não sabia que não era para ele que ela, num sussurro sofrido, implorava por ajuda; ela tentava falar com Deus.
"-Vai ficar tudo bem. A senhora vai viver muito tempo ainda."
Quem olhava para aquela menina nem imaginava o vazio que ela carregava por dentro.
Aos 17 anos, engravidou e tornou-se mãe de um menino que nunca vai conhecer o rosto do pai. 9 anos depois, ela conheceu um homem mais jovem - inteligente, esforçado, que amava a ela e ao filho -, e era como se tivessem nascido destinados a ser uma família. Quando ela recebeu a notícia de que estava grávida, novamente, a felicidade tomou conta dos três. Só que ela nunca imaginou que dois meses depois estaria no hospital, aguardando para fazer uma cirurgia para retirar um feto que não quis nascer, e que agora lhe causava uma dor insuportável no abdômen. Uma gravidez nas trompas lhe roubou o ser que estava se formando dentro dela, e que ela já amava tanto. E a família não crescerá mais. Será apenas os três - até não ser mais.
"- Que horas vou chegar em casa, hein?!"
Perguntou-se o senhor de 97 anos, que há 4 horas aguardava, na sala de espera da emergência, os exames de sangue e a tomografia que havia feito. Ele chegou no hospital com uma tosse forte, que começara a lhe causar uma forte dor nas costas. Como ele mora sozinho, quem o levou até lá foi uma senhora, que mora no mesmo prédio, de quem ele gosta como se fosse uma filha.
Já era madrugada, e após tantas horas de espera ele já sentia muito mais o sono, de quem é acostumado a dormir às 08 horas da noite, do que a dor causada pela tosse. Ele já estava planejando, mentalmente, o roteiro que faria ao sair dali, para chegar no ponto de táxi e depois em casa. Ele gosta de ir dormir cedo, para levantar ainda mais cedo, e assistir ao primeiro telejornal da manhã. Seus pensamentos foram interrompidos pelo chamado do médico. Ele não voltaria pra casa naquela noite; culpa dos pulmões que resolveram falhar. Ele não quis perguntar, mas imaginou se poderia ir pra casa há tempo de ver o telejornal matinal.
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| Foto de Hospital Tumblr |
Enquanto essas e muitas outras histórias, de muitos outros pacientes, se desenvolviam ao longo daquela noite no hospital, Valeria apenas observava. Ela estava lá para fazer uma cirurgia simples. Sabia que não corria risco de vida, que não tinha nada grave, então logo voltaria pra casa. Mas ela estava triste. Triste por saber que nem todos sairiam daquele hospital. Triste por saber que muitas pessoas estavam sofrendo enquanto esperavam, e nada podiam fazer. Triste por saber que, neste país, quem tem convênio espera horas por um exame, mesmo sendo de emergência; e quem não tem convênio, tem sérias chances de morrer enquanto espera. Triste por saber que seus pais ficarão velhos, terão problemas de saúde mas não terão garantias de um bom tratamento. Triste por saber que ela mesma ficará velha e, talvez, até lá, as coisas não mudem.
E eu fico triste por saber que este não é só mais um devaneio mas, sim, uma história real.



